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Quarta-feira, Dezembro 09, 2009
Queda dos graves Em Dekalog 2, de Kieślowski, há uma cena em que Kristina Janda empurra, lentamente, um prato com um copo de chá até ambos cairem ao chão. Quando o prato com o copo cheio chega à borda da mesa e atinge o limite de instabilidade, o plano muda, e a câmara passa a fixar o ponto do impacto. Desafiando a lei da mecânica segundo a qual todos os corpos estão sujeitos à mesma aceleração, o prato estilhaça-se primeiro no chão, e só depois vemos chegar o copo com líquido. Kieślowski certamente sabia que dois objectos largados à mesma distância levam o mesmo tempo a cair. Porque terá filmado assim esta cena? Confirmar aqui, próximo do minuto 4. Etiquetas: cinema, Kieslowski
Terça-feira, Dezembro 01, 2009
Evolução Nos tempos antigos, quando as coisas não iam bem, havia uma receita segura: imolava-se alguém no altar sacrificial. Sentimo-nos melhor ao constatar que, hoje em dia, tais práticas primitivas foram definitivamente abandonadas.
Segunda-feira, Novembro 30, 2009
Alice Tempos houve em que gostei muito de Tim Burton, e das suas visões gótico-fabulosas de bonecas de pano a desfiarem-se, e bem-humorados Jacks de cabeça de esqueleto. Mas depois de n filmes, todos mais parecidos entre si do que o meu desejo de originalidade é capaz de aguentar, resolvi dizer basta. Basta de Johnny Depps de olhos assarapantados e de Helenas Bonham-Carter desgrenhadas e de lábios pintados de carvão. A sua versão de Johnny-Chapeleiro fez capa do Público, e parece que o Museum of Modern Art lhe vai dedicar uma exposição. São duas horas e tudo vai bem. Etiquetas: cinema
Quinta-feira, Novembro 26, 2009
O mal do défice Sou leitor assíduo do The Conscience of a Liberal, blogue de Paul Krugman, prémio Nobel de Economia em 2008. Este economista (e excelente blogger, já agora) tem vindo a defender, ao contrário do que sugere a maioria dos opinadores, que o que é preciso é aumentar as medidas anti-crise e fomentar o emprego, ao contrário de retirar prematuramente os apoios do estado à economia.
Na América, como em Portugal, fala-se no défice que está a atingir proporções galácticas, e de como o Estado, esse monstro horrível, continua a gastar e a endividar-se. O que diz Krugman a isto? Que as previsões para os próximos anos são muito más, que o desemprego vai continuar alto, e que não há sinais de retorno à normalidade.
"The truth is that policy should be piling on, not looking for the exit. But central bankers can’t wait to pull away the punchbowl, even though the party hasn’t started, and shows no signs of starting for years to come."
Perante um cenário de aumento do desemprego, baixas taxas de juro e baixa inflação, o que pede a oposição conservadora? A retirada dos estímulos e em simultâneo a redução do défice. Esta histeria desperta um sentimento de déjà vu, talvez por vir das mesmas pessoas que anteriormente clamavam por outra catástrofe iminente:
There’s something disturbingly familiar about the current deficit hysteria. There’s the way that fear, and a demand for action against a supposed threat, has spread despite the lack of any solid evidence to support it. There’s the way that many news stories seem to present only one side of the argument, and suppress or neglect contrary evidence (...).
And I suddenly realized what it is: it’s like the runup to the Iraq war, when all the serious people knew that Saddam was working on nukes and invasion was the only option, and anyone who pointed out that there was no evidence to that effect was a flake.
Em Portugal, não há "economista respeitado" (cá, por coincidência, todos os "economistas respeitados" são conservadores) que não clame contra o défice enquanto bate no peito e verte lágrimas de crocodilo pelas gerações vindouras. Os jornais e os debates TV sofrem do mal do défice. Mas onde estão as projecções económicas em apoio da tese do défice letal, quando outros países têm défices maiores do que o nosso e continuam a viver com isso? (A França, por exemplo, prepara-se para aproveitar as taxas historicamente baixas para contrair um grande empréstimo, que será aplicado em ensino e investigação, entre outras áreas.) Para estas pessoas seriíssimas a regra é que quaisquer políticas de apoio ao emprego são prejudiciais, que é preciso retirar os apoios já, ou será a catástrofe. Mas quando se trata de apoios às PME todos os apoios são poucos, e para isso já não se fala do défice. Os mesmos que no passado tinham sempre as palavras "obras públicas" na ponta da língua, vêm agora rasgar as vestes quando se fala em TGV ou em auto-estradas. Gostava de ter isso por escrito. Etiquetas: economia, política
Sexta-feira, Novembro 20, 2009
Vermelho
Em Vermelho, de Krzysztof Kieślowski, o fotógrafo pede a Irène Jacob que mostre medo: "pensa numa coisa que te assuste", diz-lhe. Aos amigos ela parece feliz, mas só o juiz retirado e misantropo que escuta as conversas dos vizinhos descobre o que ela teme [magnífico J.-L. Trintignant]. É o perfil de gazela acossada dela que vai aparecer sobre fundo vermelho num cartaz de vinte metros por oito. E é a mesma expressão que ela mostra quando é miraculosamente salva da morte no fim do filme.
Neste filme, que foi o último de Kieslowski e o fecho da trilogia das cores, Irène Jacob é a antítese da Julie Delpy de Branco. Onde esta explode em histeria destrutiva, aquela é contida; onde esta é agressiva, aquela apara os golpes do companheiro. Se Branco é o filme da Igualdade, Vermelho é o da Fraternidade (pelo irmão, pela cadela ferida, por uma velha que não consegue deitar a garrafa no contentor). Etiquetas: cinema
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
50 O 50º satélite natural de Júpiter, até aqui chamado Júpiter L, já tem nome: Herse, filha de Zeus e Selene. Etiquetas: Sistema Solar
Sexta-feira, Outubro 30, 2009
Dobras e pregas
No livro The Moon: Considered as a Planet, a World and a Satellite (1874), os autores James Nasmyth e Edward Carpenter reclamam-se uma alta literacia visual, baseada em "upwards of thirty years of assiduous observation", durante os quais "every favourable opportunity has been seized to educate the eye". A fotografia, obtida por heliotipia, ilustra a mecânica do enrugamento: o que acontece quando o interior das coisas encolhe, passando a ter uma área menor do que a da pele que o envolve. Que esta imagem apareça num livro sobre o relevo da Lua só ilustra a convicção, partilhada por muitos, de que os mesmos processos se repetem e atravessam escalas, do pequeno ao imenso. Etiquetas: fotografia
aa No Dicionário Priberam da Língua Portuguesa a palavra do dia é "aa": « aa (inglês aa, do havaiano a'a, queimar), s. f. Geol. Tipo de lava viscosa, que solidifica com uma superfície irregular, áspera e com fragmentos soltos. ≠ pahoehoe. »
Sim, é verdade, os havaianos têm diferentes designações para diferentes tipos de lava, e aa não é a mesma coisa que pahoehoe. Etiquetas: vulcões
Segunda-feira, Outubro 12, 2009
Constructive, anyone? Neste mês que passou foram, afinal, em menor número as pessoas a fazer aquilo que nós sabíamos que muitas pessoas estavam a pensar fazer do que as pessoas que entendem que perhaps a more fundamental lesson is that policymakers should find constructive ways to respond to the natural pressure to cut back on stimulus. Paul Krugman concorda.
Sexta-feira, Outubro 09, 2009
A ler Livros que ardem. Etiquetas: citações
Quarta-feira, Outubro 07, 2009
Um filme menor
 Dizem que "Abraços Desfeitos" é um filme menor de Almodóvar. Seja: "Abraços Desfeitos" é um filme menor de Almodóvar. Mas "Abraços Desfeitos" é um dos poucos filmes de Almodóvar com uma personagem principal masculina, heterossexual, que não é um canalha nem um agressor compulsivo (para isso está lá outro). Bem sei que o homem simpático é um ex-realizador-tornado-argumentista após um traumático acidente que o deixou cego e com perturbações de identidade (isto é, simbolicamente amputado), e que sem-o-saber-sabendo-o é pai do filho da sua agente, que ao mesmo tempo é também seu guia e protector (simbolicamente seu pai). Mas não queiramos o banal braço quando nos é estendida a requintada mão. Feitas as contas, "Abraços Desfeitos" é um filme inovador no universo da marca do director mais famoso de Espanha, e ao mesmo tempo mais clássico do que a sua anterior filmografia. Em certa medida, é o pequeno Vertigo de Almodóvar, com mais paixão e menos mistério: Lluis Homar é o James Stewart traumatizado que salva a falsa loira Penélope Cruz das garras do terrível e poderoso amante, apenas para perdê-la para sempre. Muito poderia também ser dito sobre a figura do realizador documentarista, cujos filmes voyeuristas o pai visiona numa sala escura, acompanhado apenas por uma mulher que lê os lábios com uma voz monocórdica. Mas para isso precisaríamos de um psicanalista lacaniano esloveno que, por enquanto, ainda não colabora neste blogue. Etiquetas: Almodóvar, cinema
Negatividade Já alguém deve ter dito isto: o Movimento Mérito e Sociedade (MMS) merece a distinção de pior marketing político destas eleições, por ter escrito a palavra "castração" (química) nos seus outdoors. Independentemente do que se pense racionalmente sobre a questão em apreço nos cartazes, a associação do nome do partido a um substantivo dos mais negativos da língua portuguesa (e de qualquer outra, atrevo-me a aventar, com a possível excepção da antiga língua das amazonas, e mesmo assim com reservas) é, como dizer?, um tiro no pé que mesmo os mais inábeis saberiam evitar. Um pouco de psicologia, meus amigos, ou, em ela faltando, uma colherinha de chá. Etiquetas: política
Quarta-feira, Setembro 09, 2009
Jorge de Sena
GLOSA DE GUIDO CAVALCANTI
'Perchi' I' no spero di tornar giammai'
Porque não espero de jamais voltar à terra em que nasci; porque não espero, ainda que volte, de encontrá-la pronta a conhecer-me como agora sei
que eu a conheço; porque não espero sofrer saudades, ou perder a conta dos dias que vivi sem a lembrar; porque não espero nada, e morrerei
no exílio sempre, mas fiel ao mundo, já que de outro nenhum morro exilado; porque não espero, do meu poço fundo,
olhar o céu e ver mais que azulado esse ar que ainda respiro, esse ar imundo por quantos que me ignoram respirado;
porque não espero, espero contentado.
* Espero que, na cerimónia oficial, alguém tenha o bom senso de recordar este poema.
[daqui] Etiquetas: poesia
Sexta-feira, Setembro 04, 2009
A ler A história de uma chaleira, aqui, aqui e aqui. O marketing foi inventado para nos dar cabo do juízo (ainda bem que o Henrique voltou). Etiquetas: citações
Quarta-feira, Setembro 02, 2009
Being Charlie Kaufman
 Fui ver Sinédoque - Nova Iorque, de Charlie Kaufman. Estava à espera de um filme brilhante, com um argumento brilhante. E vi um filme bom, com um argumento brilhante. O desapontamento esteve à altura das espectativas. Quer dizer, não me interpretem mal: para quem se lembra de Being John Malkovitch, lá estão as taras da identidade, a auto-recursividade, a temática do duplo, e do duplo do duplo, e do duplo do duplo do duplo (ok, já se percebeu), a perda do livre-arbítrio (ia escrever a "titerização"), a seta do tempo que ora aponta para onde se lhe dá, ora para onde se lhe deu, as angústias existenciais (como não, dado todo o resto?). Como se não bastasse a originalidade do argumento, há uma magnífica interpretação de Philip Seymour Hoffman e um não menos portentoso trabalho de caracterização e de cenário (aquele armazém fabuloso onde cabe tudo). Et pourtant... fica a impressão de que alguma coisa falha. Não que não se trate de um filme singular e orgulhosamente distante das restantes produções americanas, próximo apenas de David Lynch na sua estranheza, e talvez de Woody Allen na sua dúvida metódica sobre a existência. Não duvido de que Sinédoque vai tornar-se um filme de culto quando começar a ser incensado pelas pessoas certas, e que é sem dúvida um case-study para argumentistas. Mas então, o que é que é? O que não funciona? O que é, é uma tentativa (um tanto ou quanto gorada) de virtuosismo, um desequilíbrio a fazer tudo tender para o lado do sub-texto, provavelmente demasiado sub-texto. Ao contrário de David Lynch, Kaufman leva-se muito a sério. Ao contrário de David Lynch, a realização um tudo nada convencional não está à altura das curvas e contracurvas do argumento. A banda sonora, banal, idem. Mas chega de dizer mal. Coisas de que gostei: a personagem principal, Caden Cotard, que apropriadamente quase se chama Coward; um bold statement sobre os malefícios da tatuagem; o filme é passado em Schenectady, que rima com Synecdoche; e quando Caden vai ao oftalmologista (onde é que já vimos isto?) diz que vai ao opthamologist (em vez de ophthalmologist) - confesso que nesta não apanhei a punchline, mas gostei na mesma. Na matiné de Sábado éramos 8 na sala. Ide ver. Etiquetas: Charlie Kaufman, cinema
Quinta-feira, Agosto 27, 2009
Some Gregors, some Joes and Janes, do not know that they have wings. This is a very nice observation on my part to be treasured all your lives.
 Nunca li "A Metamorfose", mas sempre imaginei o insecto sob a forma do qual Gregor Samsa acorda um dia como sendo uma barata. Ora, Nabokov, nas suas "Aulas de Literatura", refuta terminantemente essa interpretação, dizendo que um escaravelho se coaduna melhor com a descrição do infeliz protagonista. E até ilustra a sua tese com um desenho. Só mesmo um entomologista confirmado para nos elucidar sobre os aspectos mais obscuros da literatura. Etiquetas: literatura
WWW E se a recessão, em vez de ser em L, em U ou em W, for em WWW?
Sexta-feira, Julho 24, 2009
And the winner is... Passam hoje 50 anos sobre o chamado debate da cozinha. O debate ocorreu entre Richard Nixon (então vice-presidente) e Nikita Khrushchov, aquando de uma visita do primeiro a Moscovo. O Kitchen Debate centrou-se nos benefícios de uma cozinha tecnologicamente equipada, que toda a gente na América podia pagar. Eu não conheço o debate nem sei se está no Youtube, mas acho engraçado imaginar os dois homens a discutirem sobre os benefícios da máquina de lavar louça e do copo misturador, enquanto na retaguarda tentavam levar a melhor na estratégia MAD. Claro que hoje sabemos que quem ganhou o debate foi a China.
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